Para responder, é necessário compreender que os medicamentos que utilizamos podem ter três tipos básicos de origem. Eles são descritos abaixo:
1 - Extratos Biológicos
Medicamentos produzidos por extratos, em geral, de plantas. Estão entre os primeiros tipos de medicamento utilizados pelo ser humano. Um exemplo atual são os canabidióis (CBD), extraídos do cânhamo (Cannabis sativa). Um outro exemplo, é a vinblastina, usado em tratamento oncológico e produzido a partir do extrato da planta vinca-de-madagascar (Catharanthus roseus). A casca de salgueiro (Salix spp.) é uma fonte natural de salicina, um composto anti-inflamatório que o corpo humano converte em ácido salicílico, um precursor da aspirina
2 - Síntese Química
A aspirina (acetil salicílico) é um exemplo de medicamento obtido por essa forma. enquanto a salicina foi usada como um medicamento derivado da casca do salgueiro, a aspirina foi obtido por síntese química. O ácido salicílico é produzido por via química pela reação de Kolbe-Schmitt, tratando fenóxido de sódio com dióxido de carbono (CO2) sob alta pressão e temperatura, seguido de acidificação. O ácido salicílico obtido é, a seguir, usado para sintetizar ácido acetilsalicílico através da acilação com anidrido acético.
3 - Medicamentos Biológicos
São fármacos produzidos a partir de organismos vivos (células, bactérias, leveduras) ou materiais biológicos (proteínas, RNAs e enzimas), utilizando biotecnologia avançada, diferentemente dos sintéticos químicos. São moléculas complexas, como anticorpos monoclonais, proteínas recombinantes, RNAs e vacinas, usadas para tratar doenças crônicas, autoimunes e câncer, atuando de forma específica no organismo. São derivados de manipulação genética de organismos para viabilizar a produção de proteínas de interesse biomédico, como a insulina, hormônio de crescimento, anticorpos, fatores de crescimento produzidos na bactéria Escherichia coli ou células de mamífero em cultura. Nestes casos, a bactéria é manipulada geneticamente para produzir o biológico a partir do gene humano clonado e inserido na bactéria. Além de bactérias, podem ser engenheirados células de inseto, células de mamífero, células de plantas, organismos como vacas, ovelhas, peixes e plantas, entre outros. As vacinas de mRNAs usadas para o combate contra a Covid-19 é um biológico obtido por síntese enzimática com enzimas recombinantes de RNA polimerase obtidas de E. coli usando um DNA clonado como molde para a transcrição do mRNA, que é a seguir encapsidado em nanopartículas lipídicas para a formulação vacinal.
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Todos os medicamentos quando usados da forma correta, são seguros e importantes para a saúde e qualidade de vida das pessoas. Os medicamentos passam por muitos testes antes de serem liberados, e precisam ser controlados por órgãos oficiais de saúde. No Brasil, esse papel é bem cumprido pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). O Instituto Butantan é uma referência mundial na produção de medicamentos imunobiológicos e, por meio do CeRDI, trabalha para criar medicamentos biológicos ainda mais avançadas e eficientes, especificamente relacionadas com anticorpos monoclonais e vacinas contra influenza
Antes de serem aprovados para uso na população, todo medicamento (como as vacinas e monoclonais) passa por processos de testes rigorosos. O objetivo é garantir não apenas que sejam eficientes no combate à doença, mas também que sejam seguros. Todo medicamento pode provocar efeitos colaterais e precisa ser usado com cuidado. Ainda assim, os testes mostram na maioria das vezes que os benefícios são maiores do que qualquer efeito adverso e que o medicamento pode ser aprovado para uso com ressalvas e alertas de possíveis efeitos adversos.
Mas como ocorrem esses testes? É famoso o uso de animais para testar substâncias, e também os testes em seres humanos, em geral saudáveis. No entanto, às vezes, pacientes que já enfrentam algum problema se oferecem para participar do desenvolvimento de novos medicamentos. Mas todas essas formas de testagem podem fazer parte de um mesmo estudo. São dois os principais tipos: testes não clínicos e testes clínicos.
Testes Não-clínicos
Basicamente, são testes que não envolvem seres humanos. Costumam funcionar como a primeira fase do desenvolvimento de um novo medicamento. Testes não-clínicos têm dois objetivos: primeiro, verificar se o princípio ativo é eficaz em atingir o alvo causador da doença; segundo, identificar se alguma das substâncias usadas no remédio pode ser tóxica ou provocar reação com o tempo. Se a nova substância falhar nessa primeira etapa, nem haverá motivo para experimentá-la com seres humanos.
Testes com animais são muito comuns em estudos não clínicos: camundongos são os mais conhecidos, mas macacos e até cães podem ajudar os pesquisadores a descobrir como o novo medicamento se comporta. Porém, há outras formas de teste não-clínico: in vitro (com células e/ou amostras de tecido cultivadas em laboratório) e com modelos de computador (cálculos e simulações virtuais, a partir de um conjunto de dados).
Testes Clínicos
Depois de resultados promissores nos testes não-clínicos, os testes clínicos em seres humanos podem ser aprovados. Nesta etapa, há diferentes formas de experimentar a nova substância, a depender do problema de saúde estudado. É comum que se inicie com um pequeno grupo de voluntários saudáveis, para mapear os riscos e efeitos adversos. No momento seguinte, entram os voluntários doentes para uma avaliação principalmente de eficácia, ainda que a segurança seja sempre observada nos testes clínicos. Adultos de grupos de risco podem ser também incluídos a seguir.
Muitas vezes, a expectativa de melhorar com uma substância nova já é suficiente para fazer com que o paciente se sinta melhor – isso é chamado de efeito placebo. Os pesquisadores precisam garantir que o medicamento funcione mesmo sem esse efeito psicológico. Por isso são comuns os testes cegos: pacientes são divididos em dois grupos; um recebe o medicamento experimental e o outro recebe placebo, mas nenhum paciente sabe em qual dos dois grupos está. Existe ainda o teste duplo cego: além dos pacientes, os médicos que aplicam a substância estudada também não sabem quem está recebendo o remédio real e quem está com o placebo. O objetivo é garantir que os pesquisadores interpretem os dados sem se influenciar pelo desejo de que o novo medicamento funcione. Mesmo depois de aprovado e distribuído, o medicamento continua sendo estudado a longo prazo pela farmacovigilância. Por isso, é fundamental entender e valorizar cada etapa de pesquisas que salvam vidas.
Na aprovação de um novo medicamento, existem 3 fases de estudos clínicos. Fase 1, com pequeno número de indivíduos (10-20 indivíduos) onde se avalia principalmente a segurança do medicamento; Fase 2, com um número maior de indivíduos (100-200 indivíduos) quando se avalia a eficácia do medicamento e continua sua avaliação de segurança; Fase 3, com milhares de indivíduos, quando se deseja avaliar principalmente a eficácia do medicamento, ainda que segurança seja também monitorada. Após a aprovação da Fase 3, o medicamento poderá ser registrado e produzido. Há ainda a Fase 4 de ensaios clínicos, quando a eficácia e segurança é avaliada com o produto já comercial. Em todas estas etapas, a Farmacovigilância observa todos os efeitos adversos ocasionados pelo uso do medicamento a curto e longo prazo, além da sua eficácia. O Centro de Pesquisa e Desenvolvimento de Imunobiológicos (CeRDI) conduz testes clínicos para garantir a eficácia e segurança das vacinas de influenza e monoclonais desenvolvidos de forma inovadora pelo Instituto Butantan para permitir o seu registro, fabricação e uso pela população.
Para compreender essas doenças, é preciso repassar o funcionamento do sistema imunológico. Os leucócitos são as células que circulam no sangue e trabalham na defesa do organismo. Também conhecidos como glóbulos brancos, existem cinco tipos deles: neutrófilos, monócitos, eosinófilos, basófilos e linfócitos. Com a exceção desse último, os outros tipos celulares participam da resposta imune inata, que representa a primeira linha de defesa de forma não específica. E justamente o linfócito pode ser de dois tipos: linfócito T e linfócito B. Estes dois linfócitos participam da resposta imune adaptativa, sendo o tipo B especialista em reconhecer e combater invasores através da produção de anticorpos secretados ou ligados à membrana celular e os linfócitos T responsáveis pela resposta imune celular.
Qualquer microorganismo estranho ao corpo e que pode provocar doenças é chamado de patógeno. E todo patógeno tem, na sua cobertura, antígenos que servem de alvo do sistema imune: apresentando alguns pontos mais evidentes e característicos que são reconhecidos pelos anticorpos, chamados de epítopos. O linfócito B produz imunoglobulinas e, quando são secretadas, essas proteínas passam a circular no sangue, reconhecendo o epítopo dos antígenos e na maioria das vezes, neutralizando o patógeno.
Mas os linfócitos podem cometer um erro: confundir células saudáveis do próprio organismo com invasores. Desse modo, o sistema imunológico ataca as células, tecidos e órgãos da própria pessoa – essas são as chamadas doenças autoimunes. Com medicamentos biológicos como monoclonais, é possível modular a resposta imune dos linfócitos, criando uma memória imune mais apropriada, que pode ser imunossupressora ou imunoestimuladora. Esse é um dos importantes trabalhos desenvolvidos pelo Centro de Pesquisa e Desenvolvimento de Imunobiológicos (CeRDI).