Em artigo, cientistas reafirmam a importância da vacinação como forma de prevenção de problemas do coração associados ao vírus influenza
15/04/2026
O trabalho revela como o vírus da influenza se desloca do pulmão para o coração, o que desencadeia um programa prejudicial de interferon tipo I que compromete a função cardíaca. O estudo prova que a infecção respiratória e o risco de doença cardiovascular estão interligados clinicamente, mas os mecanismos dessa relação são em grande parte desconhecidos.
Um artigo publicado recentemente na revista Immunity por um grupo de mais de 40 pesquisadores confirmou que existe uma relação entre o vírus influenza, causador da gripe, e problemas cardíacos. Cientistas e profissionais de saúde já sabiam que era comum ver os dois problemas relacionados, mas a pesquisa publicada agora mostra como o vírus chega ao coração e porquê esse órgão está mais suscetível que outros tecidos.
O líder do estudo é o pesquisador canadense Jeffrey Downey, com graduação e doutorado em Fisiologia pela Universidade McGill, em Montreal, Canadá. Atualmente ele faz pós-doutorado na Icahn Escola de Medicina Monte Sinai, nos Estados Unidos. Além dele, outros 46 pesquisadores, de 18 diferentes instituições, assinam o artigo. Os resultados foram publicados na edição de Março de 2026 da revista Immunity, periódico científico especializado em publicar estudos sobre imunologia.
Os autores deste artigo começam a investigação pensando no caminho que o vírus faz dos pulmões até o coração: uma hipótese comum é que o coração poderia ser mais afetado por estar mais próximo dos pulmões. Porém, os testes não mostraram uma transmissão direta do vírus do tecido pulmonar para o tecido cardíaco. A equipe de pesquisa observou então a transmissão do vírus influenza por meio da corrente sanguínea. Como o sangue passa por todo o corpo, observaram o comportamento do vírus em 19 outros tecidos, e confirmaram que o coração está especialmente vulnerável.
As células pró dendríticas mieloide circulantes são células produzidas pela medula óssea com função de defesa. Elas circulam pelo sangue e, quando identificam algum tecido inflamado no corpo, se ligam a ele e ativam a produção de anticorpos. O estudo percebeu que o vírus da influenza se infiltra em um tipo específico dessas células circulantes (identificadas pelo código pro-DC3); por sua vez, o coração produz um receptor chamado CCL2, que atrai e se liga às células pro-DC3 infectadas. Dentro do coração, o vírus se desprende das células comprometidas, e infecta outras células, comprometendo os tecidos cardíacos e atrapalhando suas funções.
O estudo prova que o vírus da gripe está relacionado diretamente com problemas cardíacos, e mostra a forma como a infecção vai do pulmão ao coração. Ainda nisso, os pesquisadores mostraram o envolvimento da via de Interferon do tipo I (IFN I) neste processo. Os interferons são proteínas produzidas pelas células em resposta a um vírus ou outro patógeno invasor. Os do tipo I são produzidos por células de defesa, como leucócitos e fibroblastos, e ajudam as células ao redor a evitar que o vírus as invadam para se reproduzir. Neste estudo, os autores mostraram o envolvimento do IFN I de duas formas.
A primeira foi usando técnicas de edição dos genes por meio de uma biotecnologia chamada CRISPR-Cas9, que consiste em usar a enzima Cas9 para editar o DNA. O gene do receptor de IFN I (chamado de IFNR I) foi inativado nos cardiomiócitos, células que compõem o miocárdio no coração. Nestas condições, os camundongos infectados não apresentaram lesões no tecido do coração.
A segunda maneira que os pesquisadores usaram para demonstrar a relação dos IFN I com as lesões cardíacas foi pelo uso da tecnologia de RNA Mensageiro. A técnica permitiu expressar o receptor IFNR 1 em sua forma negativo dominante – ela permite que o IFNR I se ligue ao IFN 1 mas sem que o interferon consiga propagar o seu sinal. Isso confirmou o envolvimento desta via no dano ao coração.
O teste em animais também permitiu observar o poder que a vacina da gripe tem de proteger o coração. Comparando animais totalmente imunizados, outros apenas parcialmente imunizados, e um terceiro grupo sem imunização, a vacina da gripe provou ter efeito direto de proteção do coração.
No artigo, os pesquisadores explicam que os danos foram maiores em pacientes que já apresentavam algum problema cardíaco antes da infecção viral. Logo, além da vacina da gripe, a proteção da saúde cardíaca deve vir de hábitos saudáveis (dieta balanceada, exercício físico, controle da pressão arterial) e acompanhamento médico.
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FONTE: Downey et al., Influenza hijacks myeloid cells to inflict type-I interferon-fueled damage in the heart, Immunity (2025).